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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

IOM KIPUR


O dia do perdão

Rabi Krospedai disse a Rabi Yochanan: três livros são abertos em Rosh Hashaná. Um para pecadores totais, um para pessoas totalmente justas e um para os medianos. As pessoas totalmente justas são imediatamente inscritas e seladas para a vida; os pecadores totais são imediatamente inscritos e selados para a morte. E os medianos ficam suspensos, aguardando de Rosh Hashaná até Iom Kipur para ver se merecerão ser inscritos para a vida

Trecho da Guemará

Iom Kipur – o Dia do Perdão – é considerado por muitos como a data mais importante do calendário judaico, quando, de acordo com a tradição, Deus decide quem será inscrito no Livro da Vida. O Iom Kipur, também conhecido como “o Shabat dos Shabatot” ou Dia do Julgamento, encerra o ciclo dos chamados Iamim Noraim (Dias Intensos ou Dias Temíveis) e é celebrado dez dias depois de Rosh Hashaná.

A data é dedicada à expiação, orações e introspecção. Isso porque se acredita que Deus irá selar o Livro da Vida com os nomes daqueles que se arrependeram de seus pecados. É costume as pessoas se dirigirem aos familiares e amigos para pedir desculpas por algo que tenham feito ao longo do ano.

Restrições observadas em Iom Kipur visam aproximar os seres humanos da purificação. Não se deve comer ou beber, tomar banho, embelezar-se ou manter relações sexuais. É costume não trabalhar e as pessoas passam a maior parte do tempo nas sinagogas, com destaque para o final da cerimônia, quando se ouve o toque do shofar e termina o jejum de 24 horas.

Cerimônias

Na véspera de Iom Kipur, após um jantar festivo ainda no meio da tarde (para dar tempo de ir à sinagoga), as congregações liberais realizam a cerimônia inicial. A primeira reza é o tradicional Kol Nidrei (“Todos os meus pecados”, em hebraico), repetido três vezes para que todos tenham a oportunidade de escutá-lo, mesmo aqueles que chegarem atrasados. É o único serviço religioso noturno em que se utiliza o talit.

No dia seguinte, de volta à sinagoga, há diversas orações de confissões. Também é recitado o Izcor – em memória das pessoas já falecidas, assim como acontece em Shemini Atséret, no último dia de Pessach e no segundo dia de Shavuot. O Izcor é tradicionalmente rezado por aquele que perdeu um parente direto (pai, mãe, filho, filha irmão, irmão, marido ou esposa). Algumas famílias ensinam aos jovens que somente quem já é órfão de pai ou de mãe deve permanecer na sinagoga durante o Izcor. Nas comunidades liberais, aquele(a) que quer rezar por um amigo ou por aqueles que tombaram em guerras ou tragédias, por exemplo, pode permanecer na sinagoga.

O Iom Kipur termina com a cerimônia de Neilá (“Trancamento”, em hebraico), quando as sinagogas ficam lotadas, por se tratar, simbolicamente, do momento da decisão final do julgamento de Deus. As portas da Arca Sagrada, onde são guardados os rolos da Torá, permanecem abertas ao longo de toda a cerimônia, em uma analogia à idéia de que as portas do céu também estariam abertas neste momento. Ao final da Neilá, o shofar é tocado, marcando o fechamento dos portões celestes e o fim do Iom Kipur.

Fonte: Site da CIP – Congregação Israelita Paulista

NO SINAI

O perdão é maior do que a justiça, ele cabe ali onde a justiça não seria suficiente

QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna no dia 28 de setembro, caro leitor, eu estarei de jejum, na sinagoga. Hoje é o Dia do Perdão, data máxima do calendário judaico. O que significa o Dia do Perdão? Um bom ponto de partida para pensar em seu significado é a passagem da Bíblia hebraica quando os hebreus, ao pé do monte Sinai, aguardam o retorno de seu líder Moisés com as tábuas da Lei.

Mas nem tudo saiu como se esperava: Moisés atrasa seu retorno (fica 40 dias na montanha) e o povo perde a paciência. Quando volta, encontra os recém libertos da escravidão no Egito adorando um bezerro de ouro. Deus, irritado, mata a metade ali mesmo. A outra metade será condenada a vagar perdida pelo deserto do Sinai até que morram todos e seus filhos possam, enfim, entrar na terra prometida. E aí está o perdão.

Dirá o leitor irritado: "Mas onde?". Antes de tudo, caro leitor, tenha em mente que perdão e justiça não são a mesma coisa. O perdão é maior do que a justiça, ele cabe ali onde a justiça não seria suficiente. Você pode ser justo com alguma pessoa, sem perdoá-la.

Claro que muitos de nós, pessoas educadas, não acreditam que esta seja uma narrativa histórica, mas sim mítica. O que é um mito? Muita gente boa estudou isso: os psicólogos S. Freud e C.G. Jung, os historiadores das religiões M. Eliade, J. Campbell e K. Armstrong, e o filósofo E. Cassirer. Um modo minimamente correto de entender é pensar que o mito não descreve necessariamente um fato histórico, mas sim vivências humanas ancestrais que falam do significado da vida.

Pessoalmente prefiro ler textos bíblicos como narrativas literárias, além, é claro, de lê-los como livros sagrados, caso a leitura seja confessional, que não é meu caso aqui. Minha restrição a leitura psicologizante ou marxista de textos bíblicos é porque estas leituras pecam por ferir a própria "trama", a fim de reafirmar a teoria que usamos para lê-lo. Explico-me.

O crítico Anatol Rosenfeld escreveu um ensaio em sua coletânea "Texto e Contexto" (ed. Perspectiva) chamado "Psicologia Profunda e Crítica", no qual ele dá boas dicas do por que não abordar um texto literário reduzindo-o a excessos psicologizantes. Sua crítica cai sobre a tentativa de ler, por exemplo, Hamlet como mais um rapazinho que queria transar com a mãe e matar o próprio pai. Ou ler Santa Tereza d'Ávila em chave junguiana e ver em seus escritos místicos mais um processo de individuação.

Acho que no caso freudiano a redução é ainda pior porque o conceito de inconsciente coletivo em Jung preserva um drama maior nos personagens do que uma mera "historinha de uma menina esquisita e sua mania neurótica por Deus". E, por isso, ele sustenta a dramaticidade para além da "mera" sexualidade neurótica da menina.

Para Rosenfeld, não devemos psicologizar personagens porque, ao fazer isso, vamos a "Hamlet" apenas para reencontramos a teoria de Freud e assim perdemos "Hamlet" e ficamos apenas com seu "mesquinho" complexo de Édipo. O mesmo, digo eu, acontece quando lemos a Bíblia à cata de interpretações marxistas ou políticas: lemos a Bíblia para rever a luta de classes e a disputa política, e o drama específico narrado se perde, junto com a força de seus personagens.

Neste sentido, se não entendermos a relação entre o "personagem" Deus de Israel e os heróis bíblicos para além de reduções psicológicas ou políticas, perdemos a força do perdão dado no Sinai.

Deus não precisa perdoar ninguém porque Ele não precisa de ninguém. Este é o personagem. Quando o povo trai a aliança depois de tudo que Ele fez, Ele poderia simplesmente destruir tudo. Fosse Ele apenas justo, o sol pararia de brilhar. A idéia que Deus seja misericordioso nasce do fato que Ele nos criou e é paciente conosco sem precisar sê-lo. Daí a afirmação comum na Bíblia hebraica de que Ele carrega o mundo na palma de Sua mão enquanto nós somos uma sombra que passa.

O filósofo judeu A.I. Heschel (século 20) diz, num texto dedicado ao Dia do Perdão, que neste dia estamos de pé diante de Deus. O sentimento é de "pahad" (medo em hebraico). Devemos abaixar a cabeça e tremer, desnudando um coração que diante de Deus é sempre nu. Evidente que, além do temor, está em questão as grandes virtudes hebraicas, a gratidão, a coragem e a humildade. O pó em nós estremece diante da imensidão infinita que é Deus. Ao ouvir o coração disparado de medo, devemos escutar nele a alegria que é existir.


LUIZ FELIPE PONDÉ
ponde.folha@uol.com.br

Fonte: Folha de São Paulo - Ilustrada