quarta-feira, 12 de maio de 2010

O SANTO SUDÁRIO E NIETZSCHE

Também a Turim o Papa foi, como sucessor de Pedro, para confirmar os seus irmãos na fé. Levando no coração toda a Igreja, aliás, toda a humanidade, como quis dizer explicitamente depois de ter rezado diante do Santo Sudário. Diante deste objeto sagrado e misterioso que talvez seja a imagem mais célebre do rosto e do corpo de Cristo Bento XVI deteve-se longamente, envolvido por aquele silêncio quase irreal que surpreende cada visitador, peregrino ou apenas curioso, não obstante o imponente e incessante suceder-se quotidiano de milhares de pessoas.
Na meditação o Papa recordou as narrações evangélicas e uma reflexão tirada da antiga tradição cristã, porque o silêncio que promana do lençol mesmo entre as centenas de classes de crianças admiradas que são levadas nestas semanas pelos seus professores à Catedral de Turim é o mesmo que envolveu a terra depois da sepultura do Senhor: "Grande silêncio porque o Rei dorme", morto na carne para descer "à mansão dos mortos e abalá-la".
Foram suficientes estas palavras de uma homilia dos primeiros séculos para mover as palavras de Bento XVI, que se tornou ainda mais sensível à mensagem do Santo Sudário quis revelar pelo avançar da idade. Palavras que o Papa comparou com as de Nietzsche, tão repetidas quão perturbadas: "Deus está morto! E nós matámo-lo!". O brado do pensador eleva-se quase de uma moderna via crucis, antecipando na sua desesperada lucidez os horrores do século XX, que muitos ainda se obstinam a ignorar, esconder, justificar.
Eis o verdadeiro mistério do sinal contido no enigmático lençol sepulcral do qual Turim se orgulha: isto é, a inaudita novidade daquele que atravessou a obscuridade da morte e desceu ao inferno "onde reina o abandono total" para nele fazer ressoar a voz de Deus que venceu para sempre o mal e a morte. Uma realidade que até os mais pequeninos e os mais simples podem compreender: como o medo da escuridão sentido por crianças que é afastado pela presença de quem os ama, explicou Bento XVI, que tem o dom humano e espiritual de se fazer compreender por todos.
E do mistério do Santo Sudário que fala com o sangue provém o seu poder, porque disse o Papa com toda a tradição bíblica o sangue é a vida: de fato, a imagem no lençol é "a de um morto, mas o sangue fala da sua vida". E desta vida falou mais uma vez Bento XVI nos seus encontros com os turinenses: anunciando aquele que mostrou como se deve amar e ofereceu "a certeza de que não estamos sós". De fato Deus "está próximo de cada um com o seu amor": um amor, que certamente não se limita ao passado, que sabe que tem de enfrentar todos os dias dificuldades e tribulações.
Compete então a todos mulheres e homens, jovens e idosos imitar Cristo. Para "viver e não para ir vivendo", segundo uma expressão de Pier Giorgio Frassati, querido não só aos turinenses, que o Papa quis recordar aos jovens, mas falando a todos. É esta a mensagem que provém do sinal silencioso do Santo Sudário, daquela imagem dramática, mas serena que representa a morte de Deus denunciada por Nietzsche. Daquele Deus que desceu à mansão dos mortos para libertar da armadilha da morte todas as criaturas humanas.

Autor: Giovanni Maria Vian
Fonte: ©L'Osservatore Romano - 8 de maio de 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

EVANGELHO SEGUNDO S. JOÃO 15,26-27.16,1-4.

Paulo VI, Papa de 1963 a 1978.
Exortação apostólica «Evangelii nuntiandi», cap. 7, § 75

«Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, [...] Ele dará testemunho a Meu favor.
Repleta do conforto do Espírito Santo, a Igreja vai crescendo. Ele é a alma desta mesma Igreja. É Ele que faz com que os fiéis possam entender os ensinamentos de Jesus e o Seu mistério. Ele é Aquele que, hoje ainda, como nos inícios da Igreja, age em cada um dos evangelizadores que se deixa possuir e conduzir por Ele, e põe na sua boca as palavras que ele sozinho não poderia encontrar, ao mesmo tempo que predispõe a alma daqueles que escutam, a fim de a tornar aberta e acolhedora para a Boa Nova e para o reino anunciado.
As técnicas da evangelização são boas, obviamente; mas ainda as mais aperfeiçoadas não podem substituir a ação discreta do Espírito Santo. A preparação mais apurada do evangelizador nada faz sem Ele. De igual modo, a dialética mais convincente, sem Ele, permanece impotente em relação ao espírito dos homens. E ainda os mais bem elaborados esquemas com base sociológica e psicológica, sem Ele, em breve se demonstram desprovidos de valor.
Vivemos na Igreja um momento privilegiado do Espírito. Procura-se por toda a parte conhecê-Lo melhor, tal como a Escritura O revela. De bom grado as pessoas se colocam sob a Sua moção. Fazem-se assembléias em torno Dele. Aspira-se, enfim, a deixar-se conduzir por Ele. É um fato que o Espírito de Deus tem um lugar eminente em toda a vida da Igreja; mas é na missão evangelizadora da mesma Igreja que Ele mais age.
Não foi por acaso que o grande ponto de partida da evangelização sucedeu na manhã do Pentecostes, sob a inspiração do Espírito. Pode-se dizer que o Espírito Santo é o agente principal da evangelização [...]. Mas pode-se dizer igualmente que Ele é o termo da evangelização: de fato, sé Ele suscita a nova criação, a humanidade nova que a evangelização há-de ter como objetivo, com a unidade na variedade que a mesma evangelização intenta promover na comunidade cristã. Através Dele, do Espírito Santo, o Evangelho penetra no coração do mundo, porque é Ele que faz discernir os sinais dos tempos - os sinais de Deus -, que a evangelização descobre e valoriza no interior da história.

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sexta-feira, 7 de maio de 2010

DIACONATO PERMANENTE - ORDENAÇÕES DIACONAIS, NA FORMA ORDINÁRIA, NA ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO




















“É preciso que vocês, diáconos, visitem os pobres e levem ao conhecimento do Bispo aqueles que estão necessitados”. (Diascalia Apostolorum, III Const. 13,7)
No grau inferior da hierarquia estão os diáconos, que recebem a imposição das mãos não para o sacerdócio, e sim para o “ministério”. (Lumen Gantium 29)
“O diácono, colaborador do bispo e do presbítero, recebe uma graça sacramental própria. O carisma do diácono, sinal sacramental de “Cristo Servo”, tem uma grande eficácia para a realização missionária com visitas à libertação integral do homem”. (Documento de Puebla, 697)

A IGREJA GANHA 13 DIÁCONOS PERMANENTES

Novos diáconos permanentes, recém ordenados, com arcebispo e bispos auxiliares, logo após celebração na Catedral da Sé, no sábado, dia 24; novos ministros devem ser sinal de ‘Cristo Servidor’.



ARQUIDIOCESE GANHA MAIS 13 DIÁCONOS PERMANENTES
Um momento de rara beleza aconteceu na Catedral da Sé, no sábado passado, 24. Ali, 13 homens casados, na presença de esposas, filhos, parentes e amigos, foram ordenados diáconos pela imposição das mãos de dom Odilo Pedro Scherer, nosso arcebispo.
Um grande reforço na obra da Evangelização ganha a Igreja de São Paulo com esses 13 homens que assumem o diaconato permanente. Cabe a eles, daqui para frente, colaborar na obra da evangelização, anunciando Jesus Cristo e sua mensagem. Aliás, o diaconato, o primeiro grau na ordem sacerdotal, está voltado ao serviço da palavra, da vida sacramental e dos pobres.
O diácono permanente é ordenado para anunciar Jesus Cristo e seu Evangelho.
Comove ver a constatação desse serviço evangelizador na pregação de Santo Estevão, o primeiro mártir da Igreja. Santo Estevão discorre sobre a história da salvação com maestria, faz dela uma síntese perfeita, mostrando que ela tem seu ponto máximo na morte e ressurreição do Senhor Jesus.
Homem encantado pelo Senhor e sua mensagem, nada o faz desistir da pregação nem a morte a pedradas, sob o olhar, ao mesmo tempo desafiador e confuso, de Saulo, que seria mais tarde Paulo, o apóstolo dos gentios.
O diácono permanente é ordenado também para santificar os irmãos através da administração dos sacramentos do Batismo e do Matrimônio. Eles gerarão filhos e filhas para Deus no Batismo e testemunharão compromissos de amor e fidelidade nos casamentos. Falarão com certeza a pais e a noivos e sua fala será enriquecida pela experiência maravilhosa de serem chefes de família e pais.
Enfim, os diáconos permanentes são ordenados para socorrer dentro da comunidade os pequenos e pobres. Caberá a eles incluir aqueles que vivem a dolorosa realidade da exclusão. Aliás, não foi também esta finalidade a primeira que motivou a instituição do diaconato? Os apóstolos precisaram da diaconia de homens zelosos junto aos pobres para que o anúncio do Evangelho não fosse interrompido.
Sejam bem vindos, portanto, os 13 novos diáconos permanentes de nossa arquidiocese. Eles se somarão a outros 50 que já atuam em nossas paróquias e comunidades. Seja fecundo o trabalho deles em nossas comunidades. Recebam eles o apoio dos padres e o carinho do povo. A Igreja de São Paulo se enriquece com a chegada deles e dá glória a Deus pela seriedade com que se prepararam durante cinco anos e pelo entusiasmo com que assumem a missão que lhe é confiada.
Fonte: Jornal "O São Paulo"

quarta-feira, 21 de abril de 2010

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO TERÁ 13 NOVOS DIÁCONOS PERMANENTES

Dom Odilo presidirá a solene celebração eucarística de ordenação dos diáconos permanentes

São Paulo (Terça-feira, 20-04-2010) O arcebispo metropolitano de São Paulo, cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, ordenará no próximo sábado, 24, em solene celebração eucarística na Catedral da Sé, 13 novos diáconos permanentes para a arquidiocese da cidade.

Os novos diáconos permanentes serão: David de Oliveira; Geraldo Aparecido do Braga; Jorge Fernandes A. Vides; Jorge Luiz A. Souza; José Nilton Alfredo Oliveira; Josmar Rodrigues Cassemiro; Juscelino Minotti; Marcos Antonio Domingues; Nilo B. Santos Nóra; Paulo Roberto de Oliveira; Pedro Domenico Bruno; Rogério Lopes Camargo; e Wainer Fracaro da Silva.

Segundo o vicariato de comunicação, estes diáconos ficarão a disposição da arquidiocese de São Paulo e, posteriormente, serão designados para as regiões episcopais.

Fonte: Gaudium Press

sexta-feira, 26 de março de 2010

BENTO XVI AOS JOVENS: A VIDA NÃO SE JOGA FORA, DEUS TEM UM PROJETO PARA TODOS

Cidade do Vaticano, 25 mar (RV) - Realizou-se na noite desta quinta-feira, na Praça São Pedro, em clima de grande festa, o esperado encontro de Bento XVI com os jovens da Diocese de Roma e da região italiana do Lácio e muitos deles provenientes da Espanha para festejar o 25º aniversário dos Dia Mundial da Juventude, criado por vontade do Papa João Paulo II.
Já de há muito é tradição este momento de oração e de partilha que envolve o Papa e as novas gerações celebrado na quinta-feira anterior ao Domingo de Ramos, ocasião em que é celebrado no mundo inteiro em nível diocesano o Dia Mundial da Juventude.
O encontro com o Santo Padre foi precedido de um momento de grande animação com os jovens, que teve início às 19h30 locais, marcado por cantos, testemunhos e coreografias.
Às 20h30 locais, o Santo Padre entrou numa Praça São Pedro lotada com 70 mil jovens que, comovidos, saudaram com entusiasmo o Pontífice. A bordo do papamovel, Bento XVI circulou pelos diversos corredores da Praça São Pedro acenando alegremente aos presentes, retribuindo assim o afeto dos jovens.
Após dirigir-se ao patamar da Basílica Vaticana, colocando-se de frente para todos os jovens, teve lugar um dos momentos de particularmente comoventes: a entrada de alguns jovens com a grande Cruz do Dia Mundial da Juventude e com o ícone de Nossa Senhora "Salus Popoli Romani".
Na saudação a Bento XVI, dirigida por seu vigário-geral para a Diocese de Roma, Cardeal Agostino Vallini, o purpurado ressaltou, entre outros, que "os jovens amam o Papa" e estão aqui – disse - "para agradecer-lhe pelo fúlgido testemunho de fé que nos oferece ao afrontar provações e incompreensões. Saiba que os jovens amam o Papa, repetiu o Cardeal Vallini, após um longo aplauso que se fez ouvir em toda a Praça.
Após a proclamação do Evangelho do jovem rico teve lugar um momento de diálogo do Pontífice com os jovens. De fato, o Santo Padre respondeu às perguntas de três deles. Antes disso, agradeceu pelo afeto e pela presença.
A vida "não se joga fora", nem deve ser vivida sem perspectiva, porque Deus "tem um projeto para cada um de nós", disse o Papa respondendo a uma jovem que lhe perguntou como se pode em nossos dias, em tempos tão difíceis, perceber a vida eterna".
O Santo Padre respondeu que "nenhum de nós pode imaginar a vida eterna, porque está fora da nossa experiência, mas podemos começar a compreender o que é vivendo a vida profundamente. Não jogar a vida fora, não vivê-la para si mesma. Viver realmente a vida em sua riqueza e totalidade.
Ademais – acrescentou - é preciso responder aos mandamentos que nos convidam a amar Deus e o próximo como a nós mesmos. Assim sabemos – disse o Pontífice – que a vida jamais é um acaso. É preciso pensar "eu sou amado, sou necessário, Deus tem um projeto para mim na totalidade da história".
Respondendo sobre como viver bem a própria vida, sem desperdiçá-la, o Pontífice frisou que "Deus olha para cada um de nós com amor". Seguindo a sua vontade – acrescentou – a vida não se torna fácil, mas feliz. "Qualquer pessoa – explicou – não se pode conhecer somente com a razão, assim como se estuda a matemática, e isso vale ainda mais para a grande pessoa de Jesus, que devemos encontrar na oração: um colóquio no qual o conhecimento se torna amor."
Bento XVI destacou que "não basta somente rezar, mas devemos também fazer". Devemos empenhar-nos pelos outros, pela vitalidade da Igreja, sugeriu o Pontífice.
Numa das questões apresentadas ao Papa, um jovem questionou sobre as renúncias difíceis de serem aceitas na vida.
"Em todo esporte, profissão, expressão artística – frisou o Pontífice – a arte do ser humano exige renúncias, e renúncias verdadeiras, que nos ajudem a não cair no abismo da droga, do álcool, na escravidão da sexualidade e do dinheiro, na preguiça. Num primeiro momento parecem ações de liberdade, ao invés – concluiu – é início de escravidões sempre mais insuperáveis. Seguir adiante rumo ao bem cria a verdadeira liberdade e torna a vida preciosa."
Bento XVI despediu-se dos jovens marcando encontro para o próximo domingo, quando os encontrará novamente na celebração do Domingo de Ramos, ocasião - recordamos - na qual será celebrado o Dia Mundial da Juventude, em nível diocesano. (RL)

domingo, 21 de março de 2010

QUEM É LEIGO?


Leigo é todo católico que é batizado. Trata-se, portanto, de pensar a palavra no cristianismo e de entendê-la a partir dali, e não de outros horizontes.
Leigo é o católico comum, que professa sua fé em Jesus Cristo como o Filho de Deus, salvador da humanidade, pois é o instaurador do Reino de Deus.
Leigo não é católico de segunda categoria, a quem falta alguma coisa. Ele é constituído como leigo pelo sacramento do Batismo.
Existem três estados de vivência da fé na igreja: o de leigo, que é o cristão batizado; o de ministros ordenados, que receberam o sacramento da Ordem (diáconos, padres, bispos); e o da vida consagrada, que é o daqueles que se consagraram por um voto solene, normalmente em uma comunidade religiosa.
Leigo, portanto, não é o inferior, aquele que não sabe, não participa ou não entende de nada, como parece ser o sentido da palavra. Leigo, na verdade, é aquele que vive sua fé na vida simples e cotidiana do mundo e da sociedade.
Há diversos locais para a participação efetiva de leigos: as CEBs, as comunidades, os movimentos, as associações, os grupos pastorais, as paróquias, os grupos de articulação de leigos, os ambientes profissionais, as comunidades de atuação e estados de vida, etc.
Por isso, existem níveis de compromisso na vida eclesial do leigo. Há aquele que se dedica decididamente aos trabalhos da comunidade; há aqueles que participam efetivamente de diversos grupos ou movimentos; há os que assumem a vivência cristã nos ambientes de sua vida, com pouca ou nenhuma presença comunitária; há aqueles que estão presentes em grupos diversos; há os que freqüentam as comunidades; há os que esporadicamente se referem à Igreja ou à religião; há os que são católicos de nome; há os que se afastaram, há os que esqueceram suas raízes religiosas. Todos os leigos, porque batizados, estão convidados a repensar seu papel, função e atuação na Igreja de hoje.
O Congresso de Leigos quer ajudar todos os cristãos a melhor se situarem no mundo e na Igreja a partir de sua fé, a fim de que realizem sua missão de ser sal da terra e luz do mundo na cidade de São Paulo.

Cônego Antonio Manzatto
Responsável pela Sub-Comissão Teológica


Fonte: Site do 1° Congresso de Leigos da Arquidiocese de São Paulo

sábado, 6 de março de 2010

EVANGELHO SEGUNDO S. LUCAS 15,1-3.11-32.

Comentário ao Evangelho do dia feito por Tiago de Saroug (c. 449-521), monge e bispo sírio.
Poema (a partir da trad. P. Grelot, 1960; cf Orval)


"Levantar-me-ei, irei ter com meu pai"


Regressarei à casa de meu Pai como o filho pródigo, e serei acolhido. Tal como ele o fez, também eu o farei: Ele atender-me-á? Eis-me a bater, Pai misericordioso, à Tua porta; abre, para que eu entre, não me perca, não me afaste nem pereça! Fizeste-me Teu herdeiro, mas eu abandonei a herança e dissipei os meus bens; que doravante eu seja como um jornaleiro e um servo.

Assim como pelo publicano a tiveste, tem piedade de mim, e eu viverei pela Tua graça! Assim como à pecadora, a quem remiste, redime também os pecados que cometi, ó Filho de Deus. Assim como a Pedro, que salvaste, salva-me do meio das ondas. Assim como pelo ladrão a tiveste, tem piedade da minha baixeza e lembra-Te de mim! Assim como fizeste com a ovelha perdida, procura-me, Senhor, e encontrar-me-ás; e a Teus ombros, Senhor, leva-me à casa de Teu Pai.

Abre-me os olhos, como os abriste ao cego, para que eu veja a Tua luz! E tal como o fizeste ao surdo, abre-me os ouvidos, para que eu ouça a Tua voz. Cura esta minha enfermidade, como a curaste ao paralítico, para que eu louve o Teu nome. Purifica-me as chagas com o Teu hissope (cf. Sl 50,9), como ao leproso purificaste. Faz-me viver, Senhor, como fizeste à menina, a filha de Jairo. Cura-me, como à sogra de Pedro curaste, porque estou doente. Faz que me levante, como o fizeste ao rapaz, filho da viúva. Como a Lázaro, que chamaste, chama-me com a Tua própria voz e desprende-me destas faixas. Porque eu estou morto pelo pecado, como de uma doença; reergue-me desta ruína, e louvarei o Teu nome! Peço-te, Senhor da Terra e do Céu, vem em meu auxílio e indica-me o Teu caminho, para que eu vá até Ti. Leva-me até Ti, Filho do Bom Deus, e eleva ao máximo a Tua misericórdia. Irei até Ti e, junto a Ti, saciar-me-ei na alegria.

domingo, 31 de janeiro de 2010

EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 4,35-41

Comentário ao Evangelho feito por Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona (África do Norte) e Doutor da Igreja. Discursos sobre os salmos, Salmo 25, n.° 2 (a partir da trad. de AELF rev.)
«Desencadeou-se, então, um grande turbilhão de vento, e as ondas arrojavam-se contra o barco»
Também nós navegamos num lago onde não falta vento nem tempestades; as tentações quotidianas deste mundo quase submergem a nossa barca. Donde vem tudo isso, senão do fato de Jesus estar a dormir? Se Jesus não estivesse adormecido dentro de ti, não sofrerias tais tempestades, mas fruiriras de uma grande tranquilidade interior, porque Jesus velaria contigo.
Que quer isto dizer: «Jesus está adormecido»? Significa que a tua fé em Jesus está caída no sono. As tempestades do lago levantam-se: vês os maus a prosperar e os bons sofrer; é uma tentação, um entrechocar de ondas. E, na tua alma, dizes: «Ó meu Deus, é isto a Tua justiça, prosperarem os maus e ficarem os bons abandonados ao sofrimento?» Sim, dizes tu Deus: «É esta a Tua justiça?» E Deus responde: «É isso a tua fé? O que te prometi de fato? Fizeste-te cristão para singrares neste mundo? Atormentas-te com o destino dos maus, aqui, quando não conheces o seu destino no outro mundo?»
Qual o motivo de falares assim e de seres sacudido pelas ondas do lago e pela tempestade? É porque em ti Jesus dorme; quero com isto dizer que a tua fé em Jesus adormeceu no teu coração. Que farás para seres libertado? Acorda Jesus e diz-Lhe: «Mestre, estamos perdidos». As incertezas da travessia do lago atribulam-nos; estamos perdidos. Mas Ele despertará, quer dizer, a tua fé voltará; e, com a ajuda de Jesus, refletirás no teu coração e notarás que os bens concedidos hoje aos maus não durarão. São bens que se lhes escaparão durante a vida ou que terão de abandonar no momento da morte. A ti, pelo contrário, o que te for prometido ficar-te-á para a eternidade [...]. Vira, pois as costas àquilo que cai em ruína, e volta o teu rosto para o que permanece perene. Quando Cristo acordar, a tempestade já não te sacudirá o coração, as ondas não afundarão a tua barca, porque o vento e as ondas ficarão sob o comando da tua fé, e então o perigo desaparecerá.