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sábado, 5 de junho de 2010

PAPA FALA SOBRE SANTO TOMÁS DE AQUINO: CATEQUESE DE QUARTA-FEIRA (02/06/2010)

Caros irmãos e irmãs,
depois de algumas catequeses sobre o sacerdócio e de minhas últimas viagens, retornamos hoje ao nosso tema principal, isto é, à meditação sobre alguns dos grandes pensadores da Idade Média. Havíamos visto, na última vez, a grande figura de São Boaventura, franciscano, e hoje desejo falar daquele que a Igreja chama Doctor communis: isto é, Santo Tomás de Aquino. O meu venerado Predecessor, o Papa João Paulo II, na sua Encíclica Fides et ratio, recordou que Santo Tomás “foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao reto modo de fazer teologia” (n. 43). Não surpreende que, depois de Santo Agostinho, entre os escritores eclesiásticos mencionados no Catecismo da Igreja Católica, Santo Tomás venha citado mais que qualquer outro, precisamente sessenta e uma vezes! Ele foi chamado também Doctor Angelicus, provavelmente por suas virtudes, em particular a sublimidade do pensamento e a pureza de vida.
Tomás nasceu entre 1224 e 1225 no castelo que a sua família, nobre e abastada, possuía em Roccasecca, nas proximidades de Aquino, vizinho à célebre abadia de Montecassino, aonde foi enviado pelos pais a fim de receber os primeiros elementos de sua instrução. Alguns anos depois se transferiu para a capital do Reino da Sicília, Nápoles, onde Frederico II fundara uma prestigiosa universidade. Ali era ensinado, sem as limitações vigentes alhures, o pensamento do filósofo grego Aristóteles, no qual o jovem Tomás foi introduzido, e cujo grande valor subitamente intuiu. Mas, sobretudo, naqueles anos transcorridos em Nápoles, nasceu a sua vocação dominicana. Tomás foi, na verdade, atraído pelo ideal da Ordem fundada poucos anos antes por São Domingos. Todavia, quando revestiu o hábito dominicano, a sua família se opôs a esta escolha e ele foi constrangido a deixar o convento e a passar algum tempo com a família.
Em 1245, já maior de idade, pode retomar o seu caminho de resposta ao chamado de Deus. Foi enviado a Paris para estudar teologia sob a direção de um outro santo, Alberto Magno, sobre o qual falei recentemente. Alberto e Tomás cultivaram uma verdadeira e profunda amizade e aprenderam a estimar-se e a se querer bem, a ponto de Santo Alberto querer que seu discípulo o seguisse a Colônia, aonde o próprio Alberto fora enviado pelos Superiores da Ordem a fundar uma escola de teologia. Tomás teve então contato com todas as obras de Aristóteles e de seus comentadores árabes, que Alberto esclarecia e explicava.
Naquele período, a cultura do mundo latino fora profundamente estimulada pelo encontro com as obras de Aristóteles, que permaneceram desconhecidas por muito tempo. Tratava-se de escritos sobre a natureza do conhecimento, sobre ciências naturais, sobre metafísica, sobre a alma e sobre a ética, ricos de informações e de intuições que pareciam válidas e convincentes. Era toda uma visão completa do mundo desenvolvida sem Cristo e antes d’Ele, somente com a razão, e parecia impor-se à razão como “a” própria visão; despertava, pois, um incrível fascínio nos jovens ver e conhecer esta filosofia. Muitos acolheram com entusiasmo, até mesmo com entusiasmo acrítico, esta enorme bagagem do saber antigo, que parecia poder renovar vantajosamente a cultura, abrir totalmente novos horizontes. Outros, porém, temiam que o pensamento pagão de Aristóteles estivesse em oposição à fé cristã e se recusavam a estudá-lo. Encontraram-se duas culturas: a cultura pré-cristã de Aristóteles, com sua radical racionalidade, e a clássica cultura cristã. Certos ambientes foram levados à rejeição de Aristóteles também pela apresentação que de tal filósofo fora feita pelos comentadores árabes Avicena e Averróis. De fato, foram eles que transmitiram ao mundo latino a filosofia aristotélica. Por exemplo, estes comentadores haviam ensinado que os homens não dispõem de uma inteligência pessoal, mas que neles há um único intelecto universal, uma substância espiritual comum a todos, que opera em todos como “única”: portanto uma despersonalização do homem. Um outro ponto discutível veiculado pelos comentadores árabes era aquele segundo o qual o mundo é eterno como Deus. Compreensivelmente surgiram, no mundo universitário e no eclesiástico, disputas sem fim. A filosofia aristotélica estava sendo difundida inclusive entre o povo simples.
Tomás de Aquino, na escola de Alberto Magno, desenvolveu uma operação de fundamental importância para a história da filosofia e da teologia, eu diria, para a história da cultura: estudou a fundo Aristóteles e os seus intérpretes, buscando novas traduções latinas dos textos originais gregos. Assim não se apoiava mais somente nos comentadores árabes, mas podia ler pessoalmente os textos originais, e comentou grande parte das obras aristotélicas, distinguindo nelas o que era válido daquilo que era dúbio ou que devesse ser recusado totalmente, mostrando a consonância com os dados da Revelação cristã e utilizando ampla e agudamente o pensamento aristotélico na exposição dos escritos teológicos que compôs. Em definitivo, Tomás de Aquino mostrou que entre a fé cristã e a razão existe uma natural harmonia. E esta foi a grande obra de Tomás, que naquele momento de conflito entre duas culturas – momento no qual parecia que a fé devia dobrar-se diante da razão – mostrou que ambas caminham juntas, que quando aparecia uma razão não compatível com a fé não era razão, e quando aparecia uma fé não era fé, enquanto oposta a uma verdadeira racionalidade; assim ele criou uma nova síntese que formou a cultura dos séculos seguintes.
Por seus excelentes dotes intelectuais, Tomás foi chamado a Paris como professor de teologia na cátedra dominicana. Ali também deu início a sua produção literária, que prosseguiu até a morte, e que há algo de prodigioso: comentários à Sagrada Escritura, porque o professor de teologia era sobretudo intérprete da Escritura, comentários aos escritos de Aristóteles, obras sistemáticas poderosas, entre as quais se destaca a Summa Theologiae, tratados e discursos sobre vários temas. Para a composição de seus escritos era coadjuvado por alguns secretários, entre os quais o confrade Reginaldo de Piperno, que o seguiu fielmente e ao qual se ligou por uma profunda e sincera amizade, caracterizada por uma grande familiaridade e confiança. Esta é uma característica dos santos: cultivam a amizade, porque ela é uma das manifestações mais nobres do coração humano e que tem em si algo de divino, como o próprio Tomás explicou em algumas quaestiones da Summa Theologiae, na qual escreve: “A caridade é a amizade do homem com Deus principalmente, e com os seres que a Ele pertencem” (II, q. 23, a. 1).
Não permanece muito tempo e estavelmente em Paris. Em 1259 participou do Capítulo Geral dos Dominicanos em Valenciennes, onde foi membro de uma comissão que estabeleceu o programa de estudos na Ordem. Depois, de 1261 a 1265, Tomás estava em Orvieto. O Papa Urbano IV, que nutria por ele uma grande estima, lhe confiou a composição dos textos litúrgicos para a festa de Corpus Christi, que celebramos amanhã, instituída em seguida ao milagre eucarístico de Bolsena. Tomás teve uma alma autenticamente eucarística. Os belíssimos hinos que a liturgia da Igreja canta para celebrar o mistério da presença rela do Corpo e do Sangue do Senhor na Eucaristia são atribuídos à sua fé e à sua sabedoria teológica. De 1265 até 1268 Tomás residiu em Roma, onde, provavelmente, dirigia um Studium, isto é, uma Casa de estudos da Ordem, e onde começou a escrever a sua Summa Theologiae (cf. Jean-Pierre Torrell, Tommaso d’Aquino. L’uomo e il teologo, Casale Monf., 1994, pp. 118-184).
Em 1269 foi novamente chamado a Paris para um segundo ciclo de magistério. Os estudantes – compreende-se bem – eram entusiastas de suas aulas. Um ex-aluno seu declarou que uma grande multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, tanto que as salas mal podiam comportá-los e acrescentava, com uma anotação pessoal, que “escutá-lo era para ele uma felicidade profunda”. A interpretação de Aristóteles dada por Tomás não era aceita por todos, mas mesmo os seus adversários no campo acadêmico, como Godofredo de Fontaines, por exemplo, admitiam que a doutrina de frei Tomás fosse superior às outras por utilidade e valor e servia como corretivo às de todos os outros doutores. Talvez também a fim de subtraí-lo às intensas discussões em curso, os Superiores o enviaram uma vez mais a Nápoles, à disposição do rei Carlos I, que pretendia reorganizar os estudos universitários.
Além do estudo e do ensino, Tomás se dedicou também à pregação ao povo. E também o povo, de boa vontade, ia escutá-lo. Eu diria que é verdadeiramente uma grande graça quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. O ministério da pregação, por outro lado, ajuda os próprios estudiosos de teologia com um saudável realismo pastoral, e enriquece de vivos estímulos suas pesquisas.
Os últimos meses de vida terrena de Tomás permanecem circundados por uma atmosfera particular, diria até misteriosa. Em dezembro de 1273 chamou o seu amigo e secretário Reginaldo para comunicar-lhe a decisão de interromper todo trabalho, porque, durante a celebração da Missa, havia compreendido, em seguida a uma revelação sobrenatural, que tudo quanto havia escrito até então era somente “um monte de palha”. É um episódio misterioso que nos ajuda a compreender não somente a humildade pessoal de Tomás, mas também o fato de que tudo aquilo que conseguimos pensar e dizer sobre a fé, não obstante elevado e puro, é infinitamente superado pela grandeza e pela beleza de Deus, que nos será revelada em plenitude no Paraíso. Alguns meses depois, sempre mais absorvido em uma profunda meditação, Tomás morreu enquanto viajava para Lyon, para onde se dirigia a fim de tomar parte no Concílio Ecumênico convocado pelo Papa Gregório X. Expirou na Abadia cisterciense de Fossanova, depois de ter recebido o Viático com sentimentos de grande piedade.
A vida e a doutrina de Santo Tomás de Aquino se poderia resumir em um episódio transmitido pelos antigos biógrafos. Enquanto o Santo, como seu costume, estava em oração diante do Crucifixo, logo pela manhã na Capela de São Nicolau, em Nápoles, Domingos de Caserta, o sacristão da igreja, ouviu desenvolver-se um diálogo. Tomás perguntava, preocupado, se tudo o que havia escrito sobre os mistérios da fé cristã estava correto. E o Crucifixo responde: “Tu falaste bem de mim, Tomás. Qual será a tua recompensa?”. E a resposta que Tomás deu é aquela que também nós, amigos e discípulos de Jesus, queremos sempre dar-lhe: “Nada além de Ti, Senhor!” (Ibid., p. 320).
BENEDICTUS PP. XVI
Fonte: Santa Sé

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

NA AUDIÊNCIA GERAL, A CATEQUESE DE BENTO XVI FOI A APRESENTAÇÃO DO TRABALHO DO MONGE REFORMADOR SÃO PEDRO DAMIÃO – SÉCULO XI

Queridos irmãos e irmãs:
Durante as catequeses destas quartas-feiras, estou tratando sobre algumas grandes figuras da vida da Igreja desde suas origens. Hoje eu gostaria de falar sobre uma das personalidades mais significativas do século XI, São Pedro Damião, monge, amante da solidão e ao mesmo tempo intrépido homem de Igreja, comprometido em primeira pessoa com a obra da reforma posta em marcha pelos papas daquele tempo.
Ele nasceu em Ravenna, em 1007, de família nobre, mas que caiu em desgraça. Ao ficar órfão de ambos os pais, viveu uma infância de dificuldades e sofrimentos, apesar de que sua irmã Rosalinda tenha se empenhado em fazer o papel de mãe e o irmão mais velho, Damião, tenha o adotado como filho. Precisamente por isso, ele se chamará depois Piero di Damiano, Pedro Damião.
A formação lhe foi dada primeiro em Faenza e depois em Parma, onde, já aos 25 anos, nós o encontramos trabalhando no ensino. Junto a uma boa competência no campo do direito, adquiriu uma perícia refinada na arte da redação - a ars scribendi - e, graças ao seu conhecimento dos grandes clássicos latinos, converteu-se em "um dos melhores latinistas do seu tempo, um dos maiores escritores do medievo latino" (J. Leclercq, Pierre Damien, ermite et homme d'Église, Roma 1960, p. 172).
Ele se distinguiu nos gêneros literários mais diversos: das cartas aos sermões, das hagiografias às orações, dos poemas aos epigramas. Sua sensibilidade pela beleza o levava à contemplação poética do mundo. Pedro Damião concebia o universo como uma inesgotável "parábola" e um extensão de símbolos, a partir dos quais é possível interpretar a vida interior e a realidade divina e sobrenatural. A partir desta perspectiva, por volta de 1034, a contemplação do absoluto de Deus o levou a afastar-se progressivamente do mundo e de suas realidades efêmeras para retirar-se ao Monastero di Fonte Avvelana, fundado somente algumas décadas antes, mas já famoso por sua austeridade. Para edificação dos monges, ele escreveu a Vida do fundador, São Romualdo de Ravenna, e se empenhou ao mesmo tempo em aprofundar em sua espiritualidade, expondo seu ideal do monaquismo eremítico.
É preciso sublinhar uma peculiaridade: o eremitério de Fonte Avellana estava dedicado à Santa Cruz, e a cruz será o mistério cristão que mais fascinou Pedro Damião. "Não ama Cristo quem não ama a cruz de Cristo", afirma (Sermo XVIII, 11, p. 117); e chama a si mesmo Petrus crucis Christi servorum famulus, "Pedro servidor dos servidores da cruz de Cristo" (Ep, 9, 1). À cruz, Pedro Damião dirige orações belíssimas, porque abraça toda a história da salvação: "Ó bendita cruz, veneram-te, pregam-te e te honram a fé dos patriarcas, os vaticínios dos profetas, o senado julgador dos apóstolos, o exército vitorioso dos mártires e as multidões de todos os santos" (Sermo XLVIII, 14, p. 304).
Queridos irmãos e irmãs: que o exemplo de Pedrão Damião nos leve também a ver sempre a cruz como o supremo ato de amor de Deus pelo homem, que nos deu a salvação. Para o desenvolvimento da vida eremítica, este grande monge escreveu uma Regra na qual sublinhava fortemente o "rigor do eremitério": no silêncio do claustro, o monge está chamado a transcorrer uma vida de oração, diurna e noturna, com jejuns prolongados e austeros; deve exercitar-se em uma generosa caridade fraterna e em uma obediência ao prior sempre disposta e disponível.
No estudo e na meditação cotidiana da Sagrada Escritura, Pedro Damião descobre os significados místicos da Palavra de Deus, encontrando nela alimento para sua vida espiritual. Neste sentido, chama a cela do eremitério de "sala onde Deus conversa com os homens". A vida eremítica é para ele o cume da vida cristã, está "no vértice dos estados de vida", porque o monge, já livre das ataduras do mundo e do próprio eu, recebe "os penhores do Espírito Santo e sua alma se une, feliz, ao Esposo celestial" (Ep 18, 17; cf. Ep 28, 43 ss.). Isso é importante também hoje para nós, ainda que não sejamos monges: saber fazer silêncio em nós para escutar a voz de Deus; buscar, por assim dizer, uma "sala" onde Deus fale conosco: aprender a Palavra de Deus na oração e na meditação é o caminho da vida.
São Pedro Damião, que basicamente foi um homem de oração, de meditação, de contemplação, foi também um fino teólogo: sua reflexão sobre diversos temas doutrinais o levou a conclusões importantes para a vida. Assim, por exemplo, ele expõe com clareza e vivacidade a doutrina trinitária utilizando já, seguindo textos bíblicos e patrísticos, os três termos fundamentais que depois se converteram em determinantes também para a filosofia do Ocidente: processio, relatio e persona (cf. Opusc. XXXVIII: PL CXLV, 633-642; e Opusc. II y III: ibid., 41ss e 58ss).
Contudo, como a análise teológica o conduz a contemplar a vida íntima de Deus e o diálogo de amor inefável entre as três divinas Pessoas, ele tira disso conclusões ascéticas para a vida em comunidade e para as próprias relações entre cristãos latinos e gregos, divididos neste tema. Também a meditação sobre a figura de Cristo tem reflexos práticos significativos, ao estar toda a Escritura centrada n'Ele. O próprio "povo dos judeus - anota São Pedro Damião -, através das páginas da Sagrada Escritura, podemos dizer que levou Cristo em seus ombros" (Sermo XLVI, 15). Cristo, portanto, deve estar no centro da vida do monge: "Cristo deve ser ouvido em nossa língua, Cristo deve ser visto em nossa vida, deve ser percebido em nosso coração" (Sermo VIII, 5). A íntima união com Cristo deve envolver não somente os monges, mas todos os batizados. Supõe também para nós um intenso convite a não deixar-nos absorver totalmente pelas atividades, pelos problemas e pelas preocupações de cada dia, esquecendo-nos de que Jesus deve estar verdadeiramente no centro da nossa vida.
A comunhão com Cristo cria unidade de amor entre os cristãos. Na carta 28, que é um genial tratado de eclesiologia, Pedro Damião desenvolve uma teologia da Igreja como comunhão. "A Igreja de Cristo - escreve - está unida pelo vínculo da caridade até o ponto de que, como é uma em muitos membros, também está totalmente reunida misticamente em um só de seus membros, de forma que toda a Igreja universal se chama justamente única Esposa de Cristo em singular, e cada alma escolhida, pelo mistério sacramental, considera-se plenamente Igreja".
Isso é importante: não só que toda a Igreja universal está unida, mas que em cada um de nós a Igreja deveria estar presente em sua totalidade. Assim, o serviço do indivíduo se converte em "expressão da universalidade" (Ep 28, 9-23). Contudo, a imagem ideal da "Santa Igreja" ilustrada por Pedro Damião não corresponde - ele bem o sabia - à realidade do seu tempo. Por isso, não temeu denunciar a corrupção existente nos mosteiros e entre o clero, sobretudo devido à práxis de que as autoridades leigas conferissem a investidura dos ofícios eclesiásticos: diversos bispos e abades se comportavam como governadores dos seus próprios súditos mais que como pastores de almas. Não era por acaso que sua vida moral deixasse muito a desejar. Por isso, com grande dor e tristeza, em 1057, Pedro Damião deixa o mosteiro e aceita, ainda com dificuldade, a nomeação de cardeal bispo de Óstia, entrando assim plenamente em colaboração com os papas na difícil empresa da reforma da Igreja. Ele viu que não era suficiente contemplar e teve de renunciar à beleza da contemplação para ajudar na obra de renovação da Igreja. Renunciou, assim, à beleza do eremitério e com valor empreendeu numerosas viagens e missões.
Por seu amor à vida monástica, dez anos depois, em 1067, obteve permissão para voltar a Fonte Avellana, renunciando à diocese de Óstia. Mas a tranquilidade suspirada durou pouco: já dois anos depois, foi enviado a Frankfurt, na tentativa de evitar o divórcio de Henrique IV e sua esposa Berta; e novamente, dois anos depois, em 1071, foi a Monte Cassino para a consagração da igreja da abadia e, a princípios de 1072, dirigiu-se a Ravenna para restabelecer a paz com o arcebispo local, que havia apoiado o antipapa, provocando o interdito sobre a cidade. Durante a viagem de volta ao eremitério, uma repentina doença o obrigou a deter-se em Faenza, no mosteiro beneditino de Santa Maria Vecchia fuori porta, e lá morreu na noite entre 22 e 23 de fevereiro de 1072.
Queridos irmãos e irmãs: é uma graça grande que na vida da Igreja o Senhor tenha suscitado uma personalidade tão exuberante, rica e complexa, como a de São Pedro Damião; e não é habitual encontrar obras de teologia tão agudas e vivas como as do ermitão de Fonte Avellana. Ele foi monge até o final, com formas de austeridade que hoje poderiam parecere-nos inclusive excessivas. Desta forma, no entanto, ele fez da vida monástica um testemunho eloqüente da primazia de Deus e um convite a todos a caminhar rumo à santidade, livres de todo compromisso com o mal. Ele se consumiu, com lúcida coerência e grande severidade, pela reforma da Igreja da sua época. Entregou todas as suas energias espirituais e físicas a Cristo e à Igreja, permanecendo sempre, como ele gostava de ser chamado, Petrus ultimus monachorum servus, "Pedro, último servo dos monges".
[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]
Dirijo uma cordial saudação a todos os peregrinos de língua portuguesa, particularmente aos grupos vindos de Portugal e do Brasil, de Ribeirão Pires e Rio de Janeiro, e à Comunidade Palavra Viva, convidando a todos vós que viestes a Roma a renovar o propósito de ter Jesus Cristo como o verdadeiro centro de vossas vidas. Obrigado pela visita! Que Deus vos guarde e abençoe!

[Tradução: Aline Banchieri.
© Libreria Editrice Vaticana]

Fonte: Agencia Zenit